aTritos

Galeria Fonseca e Macedo

Exposição-aTRItos-na-Galeria-Fonseca-Macedo

Group Show with Renata Correia Botelho and Cataraiba Castelo Branco | Ponta Delgada, Azores | took place from 15 November to 22 December 2009

Texto crítico

Desafiar um artista a um diálogo plástico com outro é sempre uma forma de estimular visões diferentes sobre o seu próprio trabalho. A arte contemporânea está repleta destes exemplos. São singularidades que se dispõem a uma união de forças.

Catarina Castelo-Branco (1974), Renata Botelho (1977) e Sofia Medeiros (1975) apresentam nesta exposição essa vontade de cruzar caminhos criativos, mantendo a individualidade necessária de uma proveitosa conversa. Os temas que nos revelam são singularmente femininos: a alusão à dimensão portátil da miniatura (Os Amantes Portáteis de Sofia, Pieces of Me de Catarina e a contenção das palavras de Renata); a ideia de memória (todos os trabalhos são espelho de vivências pessoais); a intimidade do segredo ligado à ideia de caixa (no caso de Sofia explicitamente na referência à Caixa de Pandora); a importância do pormenor (expressa na fragmentação) e, finalmente a carga poética da Natureza que se liga com o local onde nasceram e vivem, a eterna magnitude vulcânica e arrebatadora dos Açores, que se expressa nas alusões atmosféricas e no doce Araçá de Catarina e especialmente na poesia de Renata que lembra a ancestral poesia haiku[1], concebida como se fosse água a cair, fluxo energético e emocional do pensamento. Simplicidade da vida que se espelha na depuração da escultura de Sofia.

Estes são apenas alguns pontos comuns deste diálogo que se podem reunir, desmanchar e reconstruir. Mas este será, apenas e como deve ser, um ponto de vista de ligação harmoniosa de conjunto das obras. O título da exposição sugere outro: o atrito. No entanto, e apesar da rudeza da palavra e daquilo que evoca no plano conflitual, lembremo-nos muitas vezes que é do confronto que surgem muitas vezes novos mundos ou um diferente entendimento sobre aqueles que estão criados. É sempre um processo de encontro, com menos ou mais faísca…

As exposições colectivas têm sempre esta imensa vantagem de colocar à disposição do observador mundos que podem ser paralelos e que estabelecem diálogos invisíveis entre si e na mente de quem os observa. A convivência entre as pessoas apresenta as mesmas características: a nossa vida e o nosso percurso é muitas vezes transformado pelo Outro, ou pelos outros. É um processo verdadeiramente mágico, alquímico, e do qual todos tiramos lições verdadeiras.

Carla Utra Mendes

[1] A poesia haiku é uma forma de poesia japonesa que foi popularizada por Bashô Matsuo (1644–1694). A sua principal característica é a captação do instantâneo, registando, enquadrando, evocando e emocionado. A ligação semântica terá sempre de ser feita pelo leitor. É uma poesia breve, depurada, bela, simples e fluente, apresentando-se como uma reacção minimalista à crescente experiência humana do caos. Pressupõe uma relação entre o particular e o geral, entre o mais individualmente percebido e o ritmo cósmico da natureza, entre a efemeridade da sensação e o eco que esta pode despertar na sensibilidade e na memória, promovendo uma união entre o sujeito e o objecto. No Oriente, o conceito de união entre o homem e a natureza é diferente do ocidental: o homem é também natureza