As outras

São cinco saias, algumas quase transparentes, bordadas ou decoradas com grandes flores, outras tecidas com fitas de plástico, recortadas em papel, vermelhas, cor-de-rosa ou de múltiplas colorações e texturas. São também cinco estruturas construídas em metal, “vestidas” por um véu ligeiro e vivaz, uma máscara que as transforma, atirando-as para o lado da heterogeneidade, das associações surpreendentes de técnicas e materiais, capazes de jogar com formas complexas e provocar sentidos inesperados.

São cinco actores, ou cinco actrizes, num palco vazio, objectos ocos à espera de ser habitados por outros corpos – de dançarinos, do publico? – e de acompanhar os seus movimentos, perturbando ou amplificando a sua mobilidade.

As Outras de Sofia de Medeiros, um trabalho realizado em 2012, nascem de um projecto de diálogo entre dança e arte contemporânea e de uma reflexão acerca das relações entre o corpo feminino e o vestuário. Como em trabalhos precedentes, e em particular na série “Brincos de Princesa”, a apropriação da tradição portuguesa e dos seus mitos desdobra-se numa estratégia estética repleta de humor que oscila entre a proximidade e o distanciamento, entre a identificação e a subversão.

Se as saias da artista evocam de facto as sete saias das mulheres da Nazaré e os seus símbolos – uma das obras intitula-se “Sete saias” –, a sua diversidade excede qualquer esquema de repetição. Aqui as saias são realizadas através de um processo que leva a artista a cruzar tradições, memórias, materiais e gestos – individuais e colectivos – cujas trajectórias são extremamente variadas. As obras constituem-se assim como objectos híbridos[1], zonas de intersecção onde as flores e fitas de plástico produzidas na China encontram o ponto cruz, os fuxicos, o papel recortado e enfim os aventais turísticos com a palavra “Açores”. Neste sentido, o trabalho de Sofia de Medeiros questiona a dimensão “pastoral”[2] das artes populares – repertório que o seu trabalho explora – remetendo para uma realidade capitalista e globalizada na qual a “pureza é um mito”[3], como já escrevia Hélio Oiticica nos anos 60. Assim, este trabalho aponta para a necessidade de negociar novos posicionamentos éticos e políticos no campo das relações laborais entre artes populares e produção massificada, mas também entre arte contemporânea e práticas artesanais.

A saia é uma roupa cuja utilização, na época moderna, é reservada, na maioria dos países ocidentais, ao sexo feminino. A saia – longa, curta, ou mini – esconde ou valoriza o corpo e ao mesmo tempo desvenda hábitos e mudanças sócio-culturais em relação à sexualidade feminina e à construção das identidades de género[4]. Sofia de Medeiros joga com a associação entre saia e feminilidade, salientando o carácter “feminino” destes objectos. Realizadas em parte com técnicas como o bordado ou a costura, as saias alimentam-se de uma iconografia dos sentimentos amorosos – integrando imagens como a flor ou o coração – ou do doméstico – como em Há festa na aldeia que utiliza aventais. Além disso, nos grandes desenhos feitos com a máquina de costura, que acompanham as saias, a artista apropria-se indiferenciadamente de imagens da cultura popular e da história da arte em que mulheres são representadas em poses estereotipadas. São mulheres que beijam apaixonadamente os seus amantes, que limpam a casa, que têm o filho amorosamente ao colo ou que dançam alegremente numa festa campestre. No seu processo crítico de apropriação, correspondente ao tempo do bordar, a artista conserva unicamente os contornos das imagens escolhidas, insistindo então no carácter standard da pose mas também na repetição daqueles mesmos gestos na vida de numerosíssimas mulheres.

As saias, objectos artísticos e teatrais, constituem-se assim como máscaras que escondem o corpo e feminizam-no, questionando o papel dos adornos corporais na construção do género e na sua representação social. Ao mesmo tempo Sofia de Medeiros lembra-nos, com o seu trabalho lúdico e imaginativo, que esta distância crítica tem de negociar com o legado que nos vem de uma tradição e de uma memória que é mais urgente transformar, repensar e questionar do que simplesmente tornar invisível.

Giulia Lamoni, Maio 2012.

[1] Lúcia Marques, no seu texto sobre o trabalho de Sofia de Medeiros, já assinalou o carácter híbrido da flor “Brincos de princesa”, título de uma série de trabalhos da artista, de 2010.

[2] Ver Glenn Adamson, Thinking through Craft, Oxford: Berg, 2007.

[3] Na obra Tropicália, 1967. Colecção do Museu Reina Sofia, Madrid.

[4] Catherine Mallaval, “La jupe, une histoire décosue”, Libération, 3/03/2010 (www.liberation.fr, consultado a 20/03/2012).

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