Naperon

Naperon (doily) | Fonseca e Macedo Gallery | Ponta Delgada, Azores | From March 13 until April 28, 2009 |

Texto Crítico: A estender o Naperon

Existem lugares que emanam energias que nos contaminam e culturas que transmitem forças obreiras, determinam a acção do artista e constroem percursos singulares de adaptação a zonas de intersecção com culturas ancestrais.

No caso particular de Sofia de Medeiros, poderia identificar o apego a uma aficionada religiosidade açoreana e usar essa premissa para apresentar as suas obras, sublinhando o interesse da artista por questões relacionadas com o cristianismo e a contaminação da estética medieval, numa abordagem serena à representação do corpo e do espírito em que as obras se assumem na contemporaneidade. Em peças como a Alma Gémea, o coração é, por um lado, a máquina que impulsiona o corpo e lhe garante o funcionamento naturalmente associado ao ímpeto carnal e, por outro, o ponto de intersecção do homem com Deus, reportando a uma espiritualidade que o coloca como elemento transcendental e simbólico passível de se encontrar em muitas representações de Arte Sacra.

Sofia desenvolve um trabalho de apropriação de materiais e de histórias ligadas à imagética popular açoreana, conjugando padrões tradicionais, revelados na moleza dos volumes criados pelos tecidos, com a rijeza do ferro que encontramos nas três Almofadas, a mesma que caracteriza o percurso escultórico da artista.

O jogo quase lúdico com os materiais pela construção de pequenas formas tridimensionais, retiradas quase dum universo infantil, conduz a outras abordagens mais sérias, que partem de objectos tradicionais da cultura religiosa micaelense e de rituais que levam a população à rua para celebrar as Festas do Divino Espírito Santo ou que, ao longo do ano, cobrem o Senhor Santo Cristo dos Milagres com diferentes capas.

A evidência do título escolhido para a exposição revela-nos uma história particular que a artista resolveu partilhar numa mesa global estendendo para isso o seu naperon.

Jorge Rocha Lagos, Fevereiro de 2009