Histórias Cruzadas

 

Histórias Cruzadas é o título da próxima exposição da artista Sofia de Medeiros (1975) que junta, num espaço imerso de significados (as ruínas romanas da Villa de Milreu (Estói, Algarve), duas séries de trabalhos nunca anteriormente expostos juntos, Brincos de Princesa – Nem Princípio Nem Fim, um projeto de 2010, e As Outras de 2012.

Olhando para o início do povoamento do arquipélago dos Açores as tarefas artesanais eram realizadas quase exclusivamente por mulheres, tendo um papel fundamental para a economia familiar. As artes populares, como a tecelagem, a costura, as rendas ou os bordados faziam parte do dia a dia, estas desempenharam uma importante parte do desenvolvimento sócio cultural das ilhas açorianas. A artista Sofia de Medeiros, demonstra bem o interesse por questões relacionadas com o papel da mulher na sociedade açoriana, as suas obras são ao mesmo tempo um continuar destes saberes técnicos artesanais assim como uma homenagem a todas estas mulheres, que procuraram nas artes populares a valorização das suas capacidades, assim como o seu lugar na sociedade.

Na primeira série da trilogia Brincos de Princesa[1], intitulada Nem princípio Nem fim, somos levados para o imaginário feminino, aqui a artista mistura com subtileza a erudição dos temas, romances cavaleirescos, contos da literatura infantil, tradições religiosas, musicais e gastronómicas com a arte popular. Mistura novos conceitos, técnicas e materiais, com os saberes ancestrais apreendidos de geração em geração. Sofia de Medeiros recebe, recria e transmite a sua cultura através da originalidade das suas obras, que se encontram repletas de valores estéticos e simbólicos.

No projeto As Outras, a artista cria cinco saias estruturadas em ferro, modeladas com tecidos, tecelagem, fitas de plástico, papel recortado, aventais açorianos, em alguns dos casos fazendo lembrar as antigas colchas do tear ou os trajes populares do folclore tradicional, ou ainda com motivos iconográficos da cultura popular açoriana. “Era…no seio das famílias camponesas,…que se teciam as colchas de repasso urdidas em linho e tapadas com fios de lã de cores garridas…”[2]

Este projeto nasce da fusão da arte com a dança, do corpo feminino com as peças de vestuário. Mais uma vez Sofia de Medeiros realça a importância dos diferentes papéis sociais atribuídos às mulheres, das diversas “peles” que estas têm de vestir.

As outras dentro de mim, as outras mulheres que tenho dentro de mim…[3]

A exposição Histórias Cruzadas terá lugar na casa rural de arquitetura civil erigida (séc. XVI a XIX), por cima das ruínas da Villa de Milreu em Estói. Este lugar, encerra uma, duas ou mais histórias, partindo da intersecção destas histórias, eis que surgem novas narrativas, novas relações entre os objetos expostos e as vivências criadas pelo público. As obras cruzam o espaço e o tempo. Os objetos conversam e prolongam esse diálogo com o público, que neles revê as suas próprias narrativas, as suas histórias, a sua História. Um universo feminino que, afinal, é o de todos e que gira, qual dança eterna, em breves momentos quotidianos.

A contemporaneidade na obra de Sofia de Medeiros emerge da tradição, juntando estes dois conceitos num só tempo. A artista recria o entendimento das obras, enquanto objetos de contemplação e de percepção. O jogo de simetrias acontece nas suas peças revelando ou buscando na imagem do outro a identidade cultural de um povo que são tantos e um só.

Tânia Alegria

Agosto 2012

 

[1] Planta híbrida de origem sul americana, com ramagem pendente.

[2] Tecelagem antiga dos Açores – elementos para o inventário artístico e técnico. CRAA.

[3] Sofia de Medeiros