Brincos de Princesa

Nem princípio nem fim, com Sofia de Medeiros

Lúcia Marques co-curadora

“Brincos de Princesa” é o título da nova série de trabalhos a que a artista Sofia de Medeiros deu forma no início de 2010, adoptando o nome de uma flor que constitui o símbolo do Rio Grande do Sul, onde – à semelhança dos Açores – as festividades religiosas são momentos marcantes de reafirmação da cultura mais tradicional (caso das Festas do Espírito Santo, tradicionalmente associadas às primeiras colheitas do calendário agrícola e fruto do desejo de uma nova era de igualdade, prosperidade, abundância).

Obtida a partir do cruzamento de diversas espécies sul americanas, esta planta híbrida é especialmente identificada pela sua ramagem pendente e certamente por isso também conhecida como “lágrima” na gíria popular. É uma associação formal que a artista explora agora até ao território dos significados, tirando partido das múltiplas conotações e sentidos que podem ter as palavras e as realidades que estas designam.

No que pensamos assim que escutamos a expressão “Brincos de Princesa”? Em algo que remetemos para o reino da fantasia: viajamos para os “contos de fadas” que foram modelando o nosso crescimento social e só então, a propósito do título da série que dá nome à presente mostra (a primeira de uma trilogia genericamente intitulada “Nem Princípio Nem Fim”), é que somos eventualmente levados a procurar uma relação entre essa reminiscência infantil e a sua transposição para o mundo “adulto” da arte contemporânea.

Sofia de Medeiros convoca para o mundo da arte, através de uma estratégia lúdica de reutilização de formas, materiais e técnicas artesanais tradicionais, os papéis sociais que nos são incutidos desde cedo (desde as “origens”), e em particular no caso das mulheres, sublinhando a prevalência dessas projecções culturais até aos nossos dias.

Interessam-lhe as categorias mentais da longa duração (histórica) – tais como o “amor” e o “trabalho” – que estruturam a existência humana e, sobretudo, constroem identidades de género, com funções e expectativas específicas, destinadas a manter uma determinada ordem na vivência comum (em “comunhão”, em sociedade).

Daí que alguns títulos das peças que agora se apresentam estejam relacionados com os romances cavaleirescos – veículos expeditos de uma fórmula amorosa disciplinadora –, ou com estereótipos da literatura infantil, para além das referências mais directas a comportamentos habitualmente adstritos à condição feminina e a tradições musicais e gastronómicas cruciais na instituição de uma lógica de identificação local ou até mesmo nacional.

São objectos que se prestam à contemplação de um sincretismo formal que é também polissémico, reiterando explicitamente a origem fetichista (de coisa-que-enfeitiça) da produção artística. São obras que resultam do ritual dos afectos, corporificando na sua essência criativa a complexa tecitura da nossa existência profundamente singular (ímpar, solitária). “Há uma mulher talvez na palavra solidão”, escreveu o poeta António Ramos Rosa e diz-me a Sofia na preparação desta exposição.