Lágrimas de Maria

Projeto artístico de Sofia de Medeiros

2013

Criar esta peça neste lugar foi uma viagem de regresso à minha infância, já que frequentava este local de culto com minha mãe, e fui me apaixonando, de uma forma inconsciente, pela beleza do barroco que a talha dos seus retábulos contém.

Criar Lágrimas de Maria foi convocar várias histórias, que se cruzam com tantas outras deste espaço.

Lágrimas de Maria é o nome que se dá às contas dos terços que os romeiros transportam consigo nos 7 dias de romaria. E por isso esta peça é uma homenagem aberta ao meu avô, António Fernandes, que foi mestre de romeiros. É também uma homenagem à fé em forma de sacrifício, mas também à reza, que embala a caminhada.

Maria-mulher, Maria-virgem imaculada. Tudo gira em torno da sua invocação e do feminino, representado aqui pelo véu, pelas flores e as cores simbólicas.

Lágrimas de Maria está suspensa sobre o coro alto, no sentido oposto ao altar de Nossa Senhora da Conceição, quase como um reflexo, que condensa a devoção, o misticismo, a dor, a penitência, entre outros que se cruzam e reúnem uma série de significados.

No meu trabalho artístico pode-se identificar o apego a uma aficionada religiosidade açoriana, sublinhando o interesse por questões relacionadas com o cristianismo e da estética barroca, numa abordagem serena à representação do corpo e do espírito com que as obras se assumem na contemporaneidade.

Embora recorra com frequência a referências e a elementos de carácter simbólico que representam o universo imagético da cultura popular açoriana, existentes nas mais diversas manifestações como os romeiros, festas do Divino Espírito Santo, Santo Cristo dos Milagres, folclore, etc., ainda não tinha abordado, como nesta peça, de forma mais direta, as questões da religiosidade e da devoção.

Sofia de Medeiros