Era preciso agradecer às flores

A ocasião da festa constitui sempre uma rutura da monotonia para dar lugar a um tempo novo, sobretudo quando favorece o reforço da memória e a irrupção do imaginário e do desejo.

As festas apresentam sempre, por conveniência da atração, um misto de sagrado e profano.

As festas assumem-se como ocasiões propiciadoras da abundância dos bens, num carácter quase mágico, viabilizadoras do reconhecimento de funções e papéis sociais, interventoras sobre o exercício do poder.

As festas nos Açores estão sempre ligadas às motivações sócio-religiosas, onde se observa um grande conjunto de expressões da linguagem, música, dança, artesanato, trajo, entre outras que possam significar os motivos das festas dos cultos, dos rituais e das práticas devocionais.

Subjacente às festas é a extraordinária complexidade e riqueza do imaginário da arte popular, reflexo da religiosidade, que se traduz nas flores das coroas dos mastros, das rosquilhas do Espírito Santo, nas alampadas e nas charolas de frutos, nos véus das noivas do Espírito Santo e nas Maias, entre muitas outras formas que cruzam histórias de diversos pontos do país com as tradições açorianas.

Sofia de Medeiros

As rosas

Quando à noite desfolho e trinco as rosas

É como se prendesse entre os meus dentes

Todo o luar das noites transparentes,

Todo o fulgor das tardes luminosas,

O vento bailador das Primaveras,

A doçura amarga dos poentes,

E a exaltação de todas as esperas.

Sofia de Mello Breyner Andresen (1947)

Uma explosão de cor, a mistura de padrões diferentes, uma arrumação desarrumada e uma desarrumação organizada…

É assim a obra de Sofia de Medeiros. Nesta exposição, cujas obras são de dois sentidos, casinhas que nada têm no interior, mas cujo exterior está repleto de motivos que nos convocam memórias (lembrei-me logo da barraca da praia da minha infância, em Matosinhos, no mês de julho…), e caixas brancas, sem exterior significante, mas em cujo interior moram, pacificamente arrumadas, grinaldas e rosas que parece que não são rosas…

As casinhas obrigam-nos a conviver no exterior, as caixas convidam-nos a entrar, mas, numas e noutras, a alegria e o gosto pela vida são contagiantes!

Outras peças, sem dentro nem fora, são, por exemplo, um belo rosário e um pacífico aglomerado de Virgens Marias. Sabemos ser Maria Bendita entre as mulheres. Se bem que neste caso Maria conviva com outras tantas Marias, todas Benditas e em pose de contemplação, de oração, de espera, de paz… O rosário, e que grande rosário de contas, leva-nos a fazer contas à vida e a desfiar as contas do que quisermos. Sendo o título da exposição Era preciso agradecer às flores, cremos ver neste rosário um conjunto de flores, ou melhor, rosas brancas, puras, imaculadas.

Ferro, têxteis, cerâmica e plástico são os materiais utilizados e o certo é que convivem em harmonia. E em harmonia e sintonia estão estas peças na Sala do Capítulo do Museu de Alberto Sampaio. A exposição de Sofia de Medeiros trouxe a esta vetusta e secular sala do Capítulo da antiga colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, uma lufada de ar fresco, de colorido e de pacífica provocação.

Guimarães, 5 de janeiro de 2017

Isabel Maria Fernandes